Rodrigo Rosenfeld Rosas

O papel do ensino superior e a carreira de programação de sistemas

09/12/2014 11:45

Fábio Akita abordou neste artigo um tópico sobre o qual sempre me interessei: educação. Um professor de universidade fez algumas perguntas com a intenção de entender como melhor investir na formação dos alunos.

A motivação, de acordo com o professor, é que muitos gerentes de TI reclamam que há um gap muito grande entre o que se ensina na academia e o que o mercado necessita...

Antes de entrar no mérito das perguntas do professor em si eu preferiria discutir o que eu considero o cerne da questão: qual o papel da universidade? Sem essa definição é simplesmente impossível orientar o professor ao caminho que ele deveria seguir para cumprir seus objetivos.

O papel do ensino superior

A motivação do professor, pelo que entendi do artigo, parece ser aproximar o aluno das necessidades do mercado. No entanto muitos professores de universidade com os quais eu conversei na época da graduação e mestrado parecem discordar desse objetivo. Para muitos professores o objetivo da universidade seria o de formar pensadores e não necessariamente de preparar o aluno para o mercado. Pelo menos não diretamente.

Há basicamente duas linhas de pensamento no que se refere ao papel da universidade. Há aqueles que acreditam que o profissional deveria sair da universidade pronto para atuar imediatamente no mercado e outros que acreditam que a universidade deveria ensinar o aluno a pescar, para resumir. Ou seja, o aluno teria uma base teórica que o permitiria a partir dali aprender quaisquer ferramentas técnicas que forem necessários para cumprir o objetivo de seu trabalho. Os que defendem essa linha frequentemente acreditam que se a universidade ensinar a usar as tecnologias de mercado atuais que estes alunos ficariam obsoletos daqui a X anos pois só conheceriam aquela tecnologia e não estariam preparados para se atualizarem. Esta também parece ser a opinião do Fábio Akita de acordo com o artigo.

Esse assunto é um tanto complexo e acho importante destacar tudo que está envolvido para que não fiquemos tentados a simplificar algo que não é simples. Vamos por partes.

Diferenças de expectativas aluno-professor

Acho interessante iniciar a análise do tema do ponto de visto das motivações. É importante entendermos os objetivos de cada parte envolvida no processo de educação. Começarei pela parte que considero a mais simples e homogênea delas: o aluno.

A meu ver, a expectativa de 90% dos alunos pelo menos é a de, através do curso superior, preparar-se para o mercado com expectativa de receber melhores salários e condições de trabalho, que justifiquem o investimento de um tempo tão precioso. Ou seja, no máximo 10% dos alunos teria alguma intenção real em tornar-se um cientista investigativo, procurando inovar e entender conceitos complexos. A densa maioria quer um lugar no mercado, em empresas tradicionais que vendem produtos ou serviços e não em empresas voltadas para a pesquisa, o que não é apenas algo raro no mundo, mas especialmente no Brasil.

As outras partes do processo de educação não são nada homogêneas. Existem professores que defendem a aproximação da universidade com o mercado e outros que defendem que a universidade deve funcionar de modo totalmente independente do mercado atual. Da mesma forma está a distribuição de pensamentos entre as diversas pessoas envolvidas no processo, desde o governo, reitores, a população e os pais dos estudantes.

Universidades públicas vs privadas

Para tornar a discussão ainda mais complicada há o agravante de que as universidades públicas e privadas funcionam normalmente de forma bem diferente devido à forma como elas são gerenciadas.

Nas universidades públicas os professores e funcionários receberão seus salários integralmente independentemente dos alunos serem aprovados ou não e por isso tem maior autonomia para decidir se o aluno está capacitado ou não para passar de ano, mas por outro lado podem até mesmo cometer abusos devido ao poder que lhes é concedido, além do corporativismo comum a esse setor, mas manterei o foco nas motivações neste artigo.

Por outro lado as universidades privadas visam maximizar o lucro em sua quase totalidade. Isso significa obter o maior número possível de pagantes usualmente, o que normalmente inibe as reprovações e por isso tentam todo tipo de artifício para fazer com que o aluno siga para o próximo ano, com avaliações extras, por exemplo, de modo similar ao que ocorre no ensino público fundamental, em que as estatísticas usadas para avaliação de indicadores são normalmente numéricas e é mais interessante mostrar que todos os alunos estão matriculados a prover uma educação de qualidade, que é difícil de ser medida. Objetivos diferentes mas resultados similares.

Algumas universidades no entanto conseguem ser rígidas e ao mesmo tempo lucrativas. Não sei de exemplos no Brasil, mas universidades como Harvard têm famas de serem difíceis e nem todos conseguem formar-se lá. Nesses casos o que ocorre é que a universidade por investir mais pesado na seleção dos que estão aptos têm maior credibilidade no mercado e o mercado estaria disposto a pagar mais por profissionais que estudaram nessas universidades. Por conta disso a universidade é capaz de cobrar mais caro de seus alunos.

No entanto não é simples chegar a esse ponto e muitas universidades lutam para sobreviverem e frequentemente acreditam que se tornassem o processo de avaliação mais rigoroso perderiam estudantes o suficiente para inviabilizar a instituição.

Normalmente as universidades privadas tendem a acreditar que a universidade deve formar profissionais para o mercado, pois é assim que eles justificam os preços de suas matrículas, através do retorno financeiro que seus alunos terão após o término do curso, em que estariam aptos a integrar o mercado de trabalho.

Esta forma de pensar conflita com a de muitos professores do setor público, que acreditam que as ferramentas atuais do mercado devem ser estudadas em paralelo de modo independente pelo aluno ou em cursos especializados após a conclusão da faculdade.

O objetivo das universidades de acordo com o governo

Essa é uma das áreas mais nebulosas pra mim. Acredito que a maioria dos políticos sequer reflita consideravelmente sobre a educação do país. Dos que tomam algum tempo para o assunto ou até mesmo dedicam-se a ele, as ideias são inúmeras.

Os recursos públicos são muito limitados e falta dinheiro para tudo no país. Assim sendo é preciso um estudo minuncioso sobre qual seria a melhor forma de investir o dinheiro arrecadado. No que se refere a educação frequentemente é necessário pensar em um foco. Ou você foca no ensino superior ou no ensino fundamental. No Brasil as regras são de que a esfera federal deveria preocupar-se com o ensino superior e tecnólogo enquanto os estados e municípios seriam responsáveis pelo ensino fundamental. Por outro lado, é possível encontrar artifícios para se subverter essa lógica. Por exemplo, o governo de FHC criou o Bolsa Escola, que era um programa social com recursos federais que não investia na educação de nível superior, mas na educação fundamental. A meu ver seria uma forma de driblar essa regra que impediria à esfera federal de investir no ensino fundamental.

Eu não sou especialista dessas regras e apenas reproduzo aquilo que ouço de terceiros mas o ponto é que sempre é possível usar de algum artifício para decidir onde colocar o foco da educação. No meu entendimento o ensino básico é o que mais carece de cuidado atualmente e deveria ser o foco da educação pública. O ensino superior é muito mais custoso e é capaz de atender apenas uma pequena parcela da sociedade. Dessa forma, a maioria é obrigada a pagar por um investimento do qual não irá usufruir. Para não politizar a discussão além da conta, prefiro apenas mostrar que dentro da esfera política também não está claro qual deve ser o papel da educação, e não apenas do nível superior mas como um todo.

Diferença entre cursos tecnólogos e científicos

De acordo com este artigo da Wikipedia, existe uma separação clara entre os dois tipos de curso superior em Portugal: o que eles chamam de ensino politécnico e ensino universitário. Eu não conheço a cultura portuguesa mas acredito que eles aceitem ambos os tipo de ensino de forma parecida, com salários associados de forma similar.

A cultura brasileira é a de considerar o ensino superior nas universidades como superior ao dos cursos tecnólogos pela grande maioria das empresas, que estariam mais dispostas a pagar mais aos profissionais formados em faculdades e valorizando menos os de nível técnico. Por esse motivo os alunos tendem a procurar mais o curso universitário com expectativa de melhores salários.

Essa é uma situação cultural infeliz porque muitas empresas realmente beneficiariam-se mais de tecnólogos para suprirem suas necessidades, que teoricamente estariam mais preparado para ingressar no mercado logo após a formação do que aqueles que se especializaram no processo científico em vez de nas ferramentas.

A educação e o mercado de programação

Voltando a discussão da educação para minha área de atuação profissional (minha área de formação é Engenharia Elétrica), e na condição de líder de um projeto grande há 3 anos que às vezes tem a oportunidade de entrevistar candidatos (formados ou não) além de ter tido contato em outras empresas com diferentes tipos de profissionais, eu procuro mostrar a minha percepção sobre esse mercado e o setor acadêmico.

Quando as pessoas consultam-se com um médico ou contratam um engenheiro normalmente assumem que o diploma é uma garantia da competência do profissional. Normalmente boa parte das profissões não é tão dinâmica quanto a de desenvolvedores de aplicações. As tecnologias nessa área mudam com uma frequência muito maior do que a da maioria das áreas em minha percepção. Por esse motivo, não é suficiente olhar que um profissional é formado na área para contratá-lo. Não é incomum ter contato com pessoas formadas na área e que têm dificuldades para concluir exercícios simples de programação usando as ferramentas solicitadas na descrição das vagas.

O candidato diz conhecer certa tecnologia mas ao ser colocado para fazer um exercício usando a tecnologia fica completamente perdido frequentemente. No fim, o processo seletivo acaba sempre criando sua própria avaliação pois a avaliação da universidade (pública ou privada) frequentemente não é suficiente. Nesse contexto eu questiono-me se de fato é interessante cobrar uma formação superior na área. E eu não sou o único. O número de profissionais sem formação atuando na área parece ser muito grande, assim como o número de profissionais da área proveniente de outras áreas de formação, como é o meu caso.

Da necessidade de educação formal

Além de ser possível trabalhar no mercado de programação de aplicações sem uma formação na área é também possível ter salários altos na área apenas demonstrando competência...

Nesse sentido é possível até questionar a viabilidade da maior parte dos alunos, que têm a motivação salarial e de carreira apenas, em fazer uma faculdade.

Afinal, com o sistema brasileiro de educação, uma pessoa só vai ter direito a alguma escolha (entre um curso técnico e uma universidade ou nenhuma especialização por exemplo) a partir da conclusão do segundo grau. Até lá não é facultado ao aluno escolher o que quer aprender. Quando o aluno termina o segundo grau frequentemente já atingiu a maioridade ou está para atingir.

E é meio que vergonhoso que a maioria das pessoas atualmente nessa condição não estejam trabalhando ainda, fazendo parte da cadeia produtiva. Em se tratando de classe média e alta é muito comum que muitos só venham a entrar para o mercado de trabalho depois dos 20 ou até mesmo 30 anos, sustentados por seus pais até então. Isso sugere que há algo muito errado no nosso sistema de educação a meu ver, por acreditar que a educação deveria preparar as pessoas para o mercado de trabalho e acredito que nós temos a capacidade de começar a integrar o mercado de trabalho já muito mais novos a partir dos 13 anos por exemplo e que é um erro levar tanto tempo antes de integrar o mercado de trabalho. Obviamente ninguém vai começar a atuar como contador ou médico aos 13 anos de idade, mas as pessoas podem começar a trabalhar com outras atividades que estejam a seu alcance. Na área de programação sequer há um limite para o que um profissional de 13 anos seja capaz de fazer.

Frequentemente as pessoas começam um estágio profissional em uma das áreas de formação de nível superior entre os 18 e 25 anos de idade, mas o mercado frequentemente considera os estagiários uma mão de obra barata dada a legislação vigente, o que não é muito interessante para os estagiários que recebem pouco e aprendem pouco.

Conclusão

Eu coloco-me à disposição para auxiliar o professor a reduzir o gap entre a universidade e as empresas, desde que fique claro qual é a expectativa do professor em relação à educação de nível superior. Eu não tenho como aconselhar a forma de lecionar e o tipo de conteúdo a ser explorado sem entender qual é o objetivo final do processo de educação esperado pelo professor. Uma vez que se esclareçam os objetivos eu tentarei colocar as mudanças que eu esperaria no sistema de educação para que os objetivos sejam cumpridos. Uma vez entendida a expectativa eu poderei responder às perguntas apontadas no artigo do Akita.

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